Com uma taxa de analfabetismo de 6% entre pessoas com 15 anos ou mais, o que equivale a mais que o dobro do índice na Cidade do Rio de Janeiro, de 2,8%, o Complexo de Favelas da Maré precisa de uma política educacional que inclua os adolescentes e os adultos. A afirmação é do coordenador do Núcleo de Pesquisas e Monitoramento de Projetos da organização Redes da Maré, Dalcio Marinho. 

Os dados estão no Censo Maré, publicado hoje (8) pela Rede. O estudo destaca que atualmente existem 44 escolas no complexo de favelas, mas que na época do levantamento, que começou no em 2013, eram cerca de metade disso. 

Segundo Marinho, para as séries iniciais há atualmente número de vagas razoável para a demanda. No entanto, apenas cinco escolas oferecem do 6º ao 9º ano do ensino fundamental e há três escolas que ofertam o ensino médio, sendo duas apenas noturnas. Para ele, isso mostra uma diferença muito grande com relação ao restante da cidade e evidencia “o quanto essas crianças vão ficando pelo caminho”. 

“É problemático achar que, uma vez dado o acesso, é problema de cada um ou de cada família continuar sua trajetória, sem considerar as condicionantes sociais, territoriais, econômicas que vão influenciar nessa trajetória do estudante. Ele não deixa a escola por uma mera opção, existem condicionantes nesse território onde ele vive que vão levar a um abandono da escola em maior proporção do que se vê no restante da cidade”. 

Ele destaca que o ciclo de desenvolvimento que o país passou na primeira década e meia do século 21 representou na região da Maré um aumento da renda e no consumo, mas a melhoria não se refletiu na escolaridade dos moradores das favelas na mesma proporção. 

Os dados do censo apontam que 18,60% dos moradores completaram apenas o ensino fundamental e 18% concluíram o ensino médio. Enquanto 8% nunca frequentaram escola, apenas 0,93% terminou a graduação e 0,03% o mestrado ou doutorado. Do total, 53,47% dos moradores da Maré não chegaram a completar o ensino fundamental. 

“Pensar em uma política educacional para a Maré é pensar na educação da população adulta. Até porque o adulto estudando é exemplo para essa criança que está lá no início do ensino fundamental, porque ela tem referência de pessoas no seu convívio, da sua família, da sua vigilância, que estejam na escola também. Hoje a gente tem o contrário, exemplo de pessoas que abandonaram os estudos cedo e foram para o mercado de trabalho. Isso acaba se reproduzindo ainda geração por geração”, afirma Marinho. 

Censo Maré

A coleta de informações para elaborar a pesquisa começou em 2013 e o material completo está disponível no site da instituição. O Complexo da Maré envolve 16 favelas, numa área que margeia a Avenida Brasil. São elas: Conjunto Esperança, Vila Do João, Conjunto Pinheiros, Vila dos Pinheiros, Novo Pinheiros (Salsa e Merengue), Conjunto Bento Ribeiro Dantas, Morro do Timbau, Baixa do Sapateiro, Nova Maré, Parque Maré, Nova Holanda, Parque Rubens Vaz, Parque União, Parque Roquete Pinto, Praia de Ramos e Marcílio Dias. Em 1994 a região foi transformada no bairro Maré, excluindo-se Marcílio Dias, que integra o bairro da Penha Circular. O Censo abrangeu todas as favelas do complexo. 

Ao todo, 158 pessoas atuaram no Censo Populacional, sendo 93 como pesquisadoras de campo e mais de 90% do total de moradores da Maré ou de outras favelas vizinhas. Foram identificados no complexo 47.758 domicílios e a entrevista foi feita em 43.941 deles, uma cobertura de 92,01%. O número total de moradores é de 139.073. 

O coordenador do trabalho, Dalcio Marinho, explica que o projeto do Censo Maré começou em 2010, quando foi iniciada a atualização da malha cartográfica da região, em parceria com a prefeitura por meio do Instituto Pereira Passos. Nesse processo, foram identificados 815 logradouros e em 2016 a prefeitura oficializou 505 ruas da Maré. O Guia de Ruas da Maré foi lançado em 2012 e atualizado em 2014, mesmo ano em que foi lançado o Censo de Empreendimentos Econômicos da Maré

Marinho destaca que os dados do Censo mostraram que o número de moradores por casa não difere do restante da cidade, com a média de 2,9 pessoas por domicílio, ao contrário do que imagina o senso comum. 

“As pessoas costumam pensar que na favela, nas periferias, os domicílios têm muitas pessoas. Essa é uma realidade já passada, nos últimos anos a taxa de fecundidade diminuiu bastante, a média de filhos por mulher já é muito baixa em todo o Brasil. Num tempo de um Brasil com população rural, que migrava para as cidades, a média de filhos por mulher era muita alta e isso era mais presente nas periferias e favelas. Hoje não, já há um equilíbrio”. 

Por outro lado, o coordenador ressalta que há diferença na idade dos pais, com as famílias nas favelas sendo iniciadas mais cedo. “É uma maternidade precoce, numa juventude, não diria na adolescência, em fase de estar ainda nos estudos para se preparar para o mercado de trabalho. Em segmentos com maior renda e maior escolaridade, os pais estão com essa idade média de primeiro filho um pouco mais elevada, acima dos 23, 24 anos. E aqui é mais precoce, média de 18, 19 anos”. 

A responsabilidade pelo domicílio também cabe a pessoas mais jovens na Maré. O censo mostrou que um em cada três jovens entre 20 e 24 anos já assume esse papel, sendo 16,8% na condição de único ou principal responsável e 20,5% compartilhando a responsabilidade. Na faixa de 25 a 29 anos 30,8% são únicos ou principais responsáveis e 22,1% compartilhando. 

*Colaborou Tâmara Freire, repórter do Radiojornalismo EBC

Edição: Aline Leal

Fonte: EBC

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