O Rock in Rio nunca foi, de fato, um festival de rock. A primeira edição, que aconteceu em 1985, trouxe em seu plantel de artistas nomes consagrados de outros gêneros, como Ney Matogrosso, George Benson e Rod Stewart (que há décadas já havia se distanciado do Blues e do Rock que fez durante seus tempos de The Faces e Jeff Beck Group). A maior transformação que se viu ao longo das edições seguintes, portanto, não foi na mistura de gêneros – apesar de, com o tempo, estilos musicais outrora rejeitados, como o funk carioca, ganharem espaço –, e sim na proposta geral do evento.

Hoje, o Rock in Rio é um evento que abraça mais do que a música, mas também a criatividade, a cultura como um todo e, principalmente, o marketing. Hoje, o Rock in Rio é, de certa forma, algo semelhante à CCXP: um grande shopping cujo ingresso além da música lhe dá acesso a atrações interativas, muita propaganda e produtos licenciados. Estandes, displays, arenas interativas crescem em quantidade a cada edição.

Esse crescimento não é novo, claro. Na edição de 2017, uma arena da GameXP já estava disponível e apresentando o evento, que veio a ter sua primeira edição no mesmo Parque Olímpico em 2018 – e já começou como o maior game park do mundo. A impressão que temos, porém, é que cada edição intensifica essa estratégia que, do ponto de vista econômico, parece ser seminal para que um evento deste porte aconteça.

O evento, entretanto, até que faz um trabalho interessante para administrar esse conflito entre ser um gigantesco festival de música e um grande parque de divulgação de marcas e produtos. A cada ano, por exemplo, o Rock in Rio adiciona novos palcos, permitindo que o festival ganhe não só em quantidade de artistas, mas também na variedade de gêneros.

Nile Rodgers no Palco Mundo: variedade musical entre as principais atrações garantiu qualidade ao festival

E se falamos de variedade, o Rock in Rio permite que falemos bastante, tanto para o bem, quanto para o mal. A variedade sonora oferecida é, sim, muito positiva. Desde funk carioca, rap nacional, MPB e samba, até o rock, o funk (o americano, como visto no memorável show de Nile Rodgers), o pop, o rock, o metal e tantas outras ramificações musicais se fizeram presentes. É de se valorizar, por exemplo, que o Rock in Rio consiga trazer uma banda como o King Crimson, que é desconhecida de grande parte do público, mesmo que isso signifique provavelmente o show com menor público em todos os dias de palcos Sunset e Mundo.

Por outro lado, a repetição tira o frescor do festival. É claro que bandas como Iron Maiden, Slayer, Red Hot Chili Peppers, Bon Jovi e Muse sempre atraem grande público, mas o fato de não ser uma novidade acaba passando a sensação de que estamos nos reunindo, de dois em dois anos, apenas para rever os mesmos espetáculos. O evento se torna algo próximo de uma Copa do Mundo, que se repete de 4 em 4 anos, com os mesmos times disputando o título. E obviamente, não se trata de falta de opções, afinal, não é difícil imaginar artistas como Neil Young, Bob Dylan, Rolling Stones, AC/DC, David Gilmour e tantos outros lotando o Palco Mundo.

Organização: entre altos, baixos e falhas de segurança

Por se tratar de um festival tão grande, é difícil esperar que a segurança impeça a entrada de pessoas com objetos proibidos. Mesmo assim, a quantidade de pessoas com tampas de garrafa (que, sim, são proibidas), potes de plástico e talheres impressionou durante o festival.

Dentro do evento, os furtos acontecem, mas parecem inevitáveis, já que é impossível prevenir um crime que acontece sem uso de qualquer objeto ilegal. Por exemplo: uma quadrilha foi presa por suspeita de furtar em torno de 100 celulares por dia no evento. Em casos como esse, a única opção parece ser mesmo o policiamento e o resgate dos objetos.

Os preços também são uma questão complexa. Treze reais em uma Heineken é um preço alto, mas que não foge tanto do que é cobrado em festivais do tipo. Mas algumas marcas extrapolaram o bom senso, como o Habib’s que, cobrando centavos por uma esfirra no dia a dia, ofereceu no evento um combo de três unidades por vinte reais – enquanto em uma unidade comum do fast-food, a mesma quantidade não chegaria a três reais.

Havia, no evento, o Gourmet Square, que oferecia culinária de marcas como a do chef Henrique Fogaça, e que cobrava um preço não tão distante dos cobrados pelas redes localizadas na área externa do evento. Um sanduíche simples no Bob’s, por exemplo, custava em torno de 20 reais, enquanto um lanche mais bem acabado da marca do júri do MasterChef Brasil custava 36 reais.

Red Hot Chilli Peppers no Palco Mundo: oferecer as mesmas atrações a cada edição faz o Rock in Rio perder valor entre o público

É da fiscalização, porém, o ponto mais negativo desta edição. No começo da segunda semana do festival, auditores fiscais da Superintendência Regional do Trabalho do Rio de Janeiro encontraram funcionários do evento dormindo embaixo da estrutura de um palco. Os funcionários dividiam espaço com quadros elétricos e fiação, o que os coloca em sério risco.

Problemas como esse não são novidade e, aparentemente (ou infelizmente), não incomodam tanto o Rock in Rio, que se ancora na venda da experiência de catarse compartilhada para criar uma imagem positiva que só existe para quem está lá como cliente. Registros de jornada dobrada também merecem ser destacados e criticados, como bem noticiou o G1.

Preparado para agradar, mas ainda incapaz de lidar de frente com deficiências

O Rock in Rio, assim como o Lollapalooza, se tornou um evento a ser marcado no calendário brasileiro. É uma grande oportunidade para a cidade receber turistas de todas as partes do país e do continente e estimular o turismo no local. Mas ainda fica evidente que há duas faces para o evento.

Se por um lado, o Rock in Rio se tornou capaz de administrar propostas tão diferentes em um só lugar, mesclando games, música, marketing e outras ideias, por outro, o despreparo e o desrespeito para com seus próprios funcionários jamais pode ser deixado de lado em uma análise sobre o festival.

A expectativa para a próxima edição, portanto, pode ser resumida em alguns pontos básicos. O primeiro é, claro, que os problemas encontrados pela Superintendência Regional do Trabalho do Rio de Janeiro não se repitam. O segundo é uma maior variação no line-up, que pode continuar sendo atrativo sem mastigar os mesmos artistas (que, na maioria dos casos, sequer lançaram material novo recentemente, o que faz com que os shows sejam apenas reproduções do que já fora visto em anos recentes). O terceiro é a torcida para que o festival consiga continuar administrando as tantas propostas sem que uma eventual expansão o torne mais fisicamente desgastante e comercialmente apelativo como já é.

Fonte: B9

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