Um dia, o aspirante a astro musical Jack Malik (Himesh Patel) acorda em um mundo onde não há registros dos Beatles, grupo que, provavelmente, foi a maior banda a pisar sobre a Terra. Malik, então, faz algo que já deve ter passado pela cabeça de todo músico: toca as músicas do quarteto de Liverpool como se fossem dele, já que não haveria quem questionasse suas composições.

O que o diretor Danny Boyle faz, porém, é trazer uma visão bem curiosa para essa história. O mais óbvio seria fazer de “Yesterday” uma comédia-musical sing along para engajar os beatlemaníacos. O que temos, entretanto, é uma comédia romântica que ainda consegue flertar com interessantes críticas à modernidade e à indústria musical.

“Yesterday” se estrutura em torno da jornada de Malik para alcançar o sucesso enquanto lida com suas questões pessoais – no caso, os sentimentos que o rapaz nutre pela melhor amiga e empresária, Ellie (Lily James). O roteiro de Richard Curtis e Jack Barth, porém, faz algo bem diferente do musical “Across The Universe”, que utiliza as canções dos Beatles para narrar a história do protagonista. Na verdade, tanto o roteiro quanto a direção parecem utilizar as músicas dos Beatles mais como esse dispositivo narrativo que abre um novo universo para o personagem.

Danny Boyle (à esquerda) conversa com Himesh Patel no set

O mais interessante de “Yesterday” é quando o filme utiliza a obra da banda inglesa para mostrar as diferenças entre o mundo dos anos 60 e o de hoje. Quando Malik toca “Let it Be” para seus pais, por exemplo, a apresentação mal chega ao meio da canção, já que a todo momento surge algo interrompendo o protagonista. Seja os próprios pais indo buscar cerveja, ou um vizinho tocando a campainha, ou um telefone tocando… Boyle retrata com sutileza mas veemência a diferença do mundo no qual “Let It Be” foi concebida para o de hoje, mergulhado na informação e na desatenção. De certa forma, é interessante pensar, por exemplo, que não só o mundo, mas os próprios Beatles seriam artistas bastante diferentes caso começassem sua carreira hoje.

Essa questão abre espaço para outro aspecto bem interessante que surge ao longo da ascensão musical de Malik. Desde o fim dos anos 60, lá para a época do festival de Woodstock, o mundo da música passou por transformações imensas. Os artistas, aos poucos, foram perdendo autonomia na composição, confecção, distribuição e divulgação de suas obras – o que culminou na pasteurização de boa parte do cenário musical nos anos 80, que talvez seja a pior década do Rock no século passado. Boyle, Curtis e Barth perpassam a discussão de forma escrachada, mas interessante, mostrando como as ideias de Malik, que queria lançar álbuns com os mesmos nomes dos originais dos Beatles, foram massacradas pelos produtores e marqueteiros responsáveis por sua carreira.

Fonte: B9

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