“Velozes e Furiosos” deve ser a série cinematográfica que mais passou por mudanças nos últimos anos. O primeiro capítulo, dirigido por Rob Cohen e lançado em 2001, abordava uma investigação policial no submundo das corridas de rua dos Estados Unidos. Após o mal recebido terceiro filme, “Velozes e Furiosos: Desafio em Tóquio”, longa-metragem 2006 que apresentou novos personagens e deslocou a trama para o Japão, a franquia passou por uma grande reformulação.

“Velozes e Furiosos 4” trouxe bastante novidade para a saga, mesmo que resgatando os personagens “clássicos” apresentados no primeiro filme. Nas mãos de Justin Lin, o filme fugiu bastante do pano de fundo das corridas de rua e se tornou um verdadeiro blockbuster de assalto, com missões mirabolantes nas quais os personagens devem invadir lugares super protegidos, resgatar personagens presos, e por aí vai.

Com o sucesso da nova fórmula, a série continuou com mais quatro filmes. Desde então, não houve grandes novidades no formato, mas um elemento se destaca entre eles: o total e crescente desprezo pelo realismo. Em um período no qual boa parte dos blockbusters de ação parecem presos a um realismo – vide casos como a trilogia “Bourne” e os “Batman” de Christopher Nolan –, a franquia dos pilotos super habilidosos se tornou cada vez mais mentirosa, e, assim, conquistou cada vez mais público. Chegamos ao ponto de hoje existir realmente a possibilidade de termos um filme “Velozes e Furiosos” ambientado no espaço (!).

Eis que chegamos, então, ao primeiro spin-off da série. “Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw” foca em dois coadjuvantes muito queridos pelo público, que surgiram justamente após a transformação trazida por Justin Lin. Os carismáticos Luke Hobbs (Dwayne Johnson) e Deckard Shaw (Jason Statham) precisam se unir para salvar o mundo da possibilidade de um mega-vírus destruir nossa civilização. Partindo dessa premissa extremamente simples e clichê, o diretor David Leitch (de Atômica e Deadpool 2) faz uma verdadeira paródia do gênero – que atualmente é bastante influenciado pela própria saga “Velozes”, vale dizer – explorando principalmente o humor da dupla protagonista e as características do atual cinema de ação, chegando até mesmo à desconstrução do próprio modelo estético de seu filme.

David Leitch confraterniza com Dwayne Johnson no set

Como fez em “Atômica” e, ao lado de Chad Stahelski, no primeiro “John Wick”, Leitch brinca bastante com as cores e com o humor físico de seus personagens. O fato de ter em mãos dois astros do cinema de ação tão diferentes e já apresentados na franquia é um facilitador importante para “Hobbs & Shaw”. O curioso, porém, é que Leitch não só trata seu filme como uma paródia, como uma piada, como também expõe isso antes mesmo de projetar os créditos iniciais. Antes sequer de começar o filme, há uma espécie de “trailer fake” apresentando os dois personagens e suas características – lembrando o que Ben Stiller fez no divertidíssimo “Trovão Tropical”. Mais do que uma piada, a escolha é um dispositivo para permitir que o espectador já comece sua sessão desprovido de qualquer apego à realidade.

Se afirmei que, aos poucos, a saga “Velozes e Furiosos” abraçava o absurdo sem nenhum pudor, “Hobbs & Shaw” eleva isso a um novo nível por meio de suas auto-paródias. O humor existe em diversas formas e está lá sempre não só para brincar com a realidade diegética da obra, como também para expor a própria estrutura narrativa do filme. Por um lado, há um vilão super poderoso que se apresenta como “vilão” ou o “Superman negro”; por outro, há um agente da CIA que parece ser menos inteligente do que a filha de nove anos do protagonista, e, em seus diálogos, expõe como sua própria metodologia é pouco inteligente para quem trabalha em um órgão de espionagem internacional.

Fonte: B9

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