Desde que estourou na mídia e em pouco tempo se converteu numa das principais séries do mainstream televisivo neste momento pós-advento do streaming, “Stranger Things” vem lutando progressivamente para adequar suas estruturas desambiciosas e mesmo de nicho à perspectiva do hit comercial do qual se tornou. É uma dinâmica de equalização de escala que, muito por conta da trajetória meteórica do seriado, se vê refletida no próprio curso do programa, desde a crescente do orçamento de cada nova temporada até os temas que saíram do conforto do cercadinho de uma história pontual de mistério, digno de sua vertente mais pulp, para passar a procurar razões de contexto na década oitentista no qual tira o grosso de suas referências.

Esta ascensão pode ter sido acelerada para os padrões tradicionais da telinha, mas o programa pelo visto soube muito bem como aceitar estas mudanças de paradigma e a curva de aprendizado inerente ao processo. Depois de um segundo ano um tanto hesitante, a série e seus criadores – os irmãos Matt e Ross Duffer – retornam para a terceira temporada dispostos a abraçar de vez o viés do grande espetáculo, uma tendência que já se nota não apenas na gravidade maior dos atos, mas na explosão de cores e neóns que tiram de vez a produção de seu flerte com o horror das histórias de Stephen King. É uma forma sutil dos showrunners reconhecerem a metamorfose de sua obra perante a pressão midiática e do público, completando a transformação do seriado no fenômeno pop que nasceu para ser nesta década movida à nostalgia.

Se esta medida é uma que afasta a produção de suas raízes (ainda mais por esta ter nascido de cruzamento de gêneros tão mais contidos) é uma discussão a parte, mas o mais importante de se constatar aqui é que pela primeira vez “Stranger Things” se desenrola como a grande epopeia televisiva de seu cenário, estando muito mais consciente do tamanho do impacto de seus atos em relação a anos anteriores – uma percepção que sem dúvida há de alterar a maneira como acompanhamos as dinâmicas já estabelecidas da narrativa.

Os irmãos Matt e Ross Duffer (nas extremidades) com Millie Bobby Brown e Sadie Sink no set

Quem se mostra atento a esta virada de percepção do público são os próprios Duffer, o que explica o porquê de parte destes oito episódios brincarem tanto com as expectativas do espectador. Além de desarmar determinadas relações pré-estabelecidas entre personagens – que incluem não só as idas e vindas de Hopper (David Harbour) e Joyce (Winona Ryder) como o deslocamento de Dustin (Gaten Matarazzo) com o resto do grupo de crianças, por exemplo – a própria maneira como a série se relaciona com o passado oitentista muda, escapando um pouco da entrega unidirecional de referências para buscar o enlaço com os comportamentos de época.

Não que “Stranger Things” abandone neste terceiro ano o seu principal chamariz, é claro, mas diz muito sobre a temporada que a história dos novos episódios gire em torno de um shopping financiado pela paranoia comunista – o qual assume de vez aqui o posto de co-antagonista junto das eternas ameaças do Mundo Invertido. O fato da trama ser ambientada em 1985, ano que não apenas marca o primeiro ano do segundo mandato presidencial de Ronald Reagan como a virada da década para seus anos economicamente mais difíceis, ajuda os Duffer a levar para a série o clima de descartabilidade do cenário cultural e da falsa sensação de progresso perante uma crise que se anuncia nas bordas; a cidade de Hawkins encontra-se à beira da falência por conta do Starcourt Mall, mas ninguém parece se importar o suficiente com isso fora alguns manifestantes na prefeitura, com o deslumbre da febre de consumismo se proliferando na região.

Não por acaso, os melhores momentos desta temporada derivam justo desta constatação mais ácida, especialmente pela maneira como a narrativa insere personagens até então isolados neste contexto tão sutil em seu lado traiçoeiro. Exemplo mais contundente disso são as cenas em que Max (Sadie Sink) apresenta Eleven (Millie Bobby Brown) ao cotidiano do shopping, onde os showrunners aproveitam ao máximo este contato ingênuo da inocência com a voracidade do capitalismo à partir do olhar esbugalhado de Brown – nada poderia sintetizar melhor as “possibilidades” do consumo que a incredulidade da protagonista mirim perguntando à amiga o que fazer a seguir.

Fonte: B9

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