Ao longo dos últimos dezenove anos, doze filmes ambientados no mesmo universo mutante foram lançados. De lá para cá, muita coisa mudou, tanto na saga, quanto na indústria e, principalmente, na própria forma de adaptar quadrinhos aos cinemas. Se em “X-Men”, de 2000, vemos até hoje uma certa inocência e cautela na construção de um mundo super-heróico, filmes como “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido” já fazem bom proveito do caminho pavimentado e mostram como, aos poucos, a série de longas-metragens se tornou muito mais fantasiosa e com as caras dos quadrinhos.

Apesar de ter ficado cada vez mais “fácil” fazer filmes de heróis – afinal, com o sucesso de alguns e o fracasso de outros, ficaram óbvios quais são os parâmetros do público e quais fórmulas costumavam dar certo e quais não –, a saga “X-Men” acabou não se adequando muito bem a essas transformações da indústria. Após o desastre de “X-Men 3: O Confronto Final”, a série passou por uma enorme reformulação, que incluiu catástrofes como “X-Men Origens: Wolverine”.

Os personagens da Marvel (que no cinema pertenciam, até pouco tempo atrás, à Fox) ganharam nova vida em 2011, quando Matthew Vaughn (“Kingsman: Serviço Secreto”) dirigiu “X-Men: Primeira Classe” (que até hoje é, com sobras, o melhor filme do universo mutante). Com um novo elenco e acompanhando os mutantes da escola Xavier em sua juventude, o longa-metragem de Vaughn foi um reboot que, mesmo que não elimine o que ficou para trás, conseguiu dar novos ares para a franquia.

Simon Kinberg (à esquerda) orienta Sophie Turner no set do filme

Alguns filmes irregulares depois, eis que chegamos, finalmente, ao capítulo final dessa saga. “X-Men: Fênix Negra” reconta a história que já fora explorada em “O Confronto Final”, mas à sua própria maneira. Dessa vez, com Jean (Sophie Turner) como protagonista, acompanhamos a uma jornada de autoempoderamento, autodescoberta e sacrifício, temas constantes na mitologia “X-Men”, desde os quadrinhos às animações e obras cinematográficas. O recorte social sempre existiu na saga, mas foi abordado sempre com uma pegada política, já que Singer sempre trazia para o foco conflitos estatais e militares; o que vemos em “Fênix Negra”, porém, é uma abordagem mais juvenil do tema.

O resultado passa longe de ser satisfatório. “Fênix Negra” é dirigido por Simon Kinberg em sua estreia à frente das câmeras, mas mesmo que acumule a experiência de ter sido o roteirista de três obras da saga mutante ele demonstra enorme dificuldade em administrar suas ideias. O resultado é uma despedida azeda, extremamente prejudicada pela falta e visão de seu realizador e até mesmo infantil nos momentos nos quais se posiciona (em vez de discussões pertinentes, o roteiro parece mais interessado em espalhar frases de efeitos sobre protagonismo feminino que pouco ajudam no desenvolvimento das personagens).

Kinberg tenta administrar os dramas pessoais dos mutantes com questionamentos éticos e políticos e, no meio disso, tenta resgatar a tradição de cenas de ação bem trabalhadas que marcaram a saga. Os problemas na realização desses objetivos são muitos, o que faz com que “Fênix Negra” seja inferior aos seus antecessores e sequer consiga apresentar grandes novidades em relação ao “Confronto Final”, que contou uma história bastante semelhante, mas com viés social mais encorpado.

Fonte: B9

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