Entre o segundo remake de “Godzilla” e sua continuação, “Rei dos Monstros”, existe um intervalo de cinco anos que ajuda a explicar em parte o porquê de ambas as produções, embora reunidas sob o guarda-chuva de uma mesma franquia, se distinguirem tanto entre si. O longa de 2014, dirigido por Gareth Edwards e lançado depois de uma campanha misteriosa e que anunciava o projeto praticamente como uma versão “verossimilhante” do surgimento e invasão de um monstro de quilômetros de altura, vinha pouco depois do auge comercial da trilogia do “Cavaleiro das Trevas” de Christopher Nolan nas telonas e da urgência de produções mais “realistas” dentro do formato do blockbuster hollywoodiano, o que talvez tenha ajudado o filme a ser recebido de forma tão dividida em sua estreia e num debate movido a reclamações da ausência de sua principal atração em grande parte da história.

Já a sequência comandada por Michael Dougherty chega aos cinemas num momento muito diferente, quando a principal moeda de troca do mercado parece morar na relação com os fãs e – graças ao sucesso do Marvel Studios – na expansividade contínua e ininterrupta de um grande universo por trás das produções, munidas ainda de um flerte cada vez maior dos estúdios estadunidenses pelo setor asiático e os cinemas chineses, que injetam quantias cada vez mais agressivas de bilheteria aos lançamentos arrasa-quarteirão. Talvez por conta de seu peso (literal nas telas, simbólico nos números), este segundo “Godzilla” não demora a se mostrar direcionado por esta trindade de valores comerciais, até porque sua meta inicial soa em alguns momentos como um “reparo” daquilo que tinha saído “errado” no anterior aos olhos dos fãs – uma relação que aos poucos vai se mostrando deteriorante aos próprios caminhos da produção.

O diretor Michael Dougherty (à direita) conversa com Millie Bobby Brown no set

Os sinais mais claros desta engenharia reversa surgem de bate pronto na maneira como os monstros (ou titãs, para ficar na linguagem da trama escrita por Dougherty e Zach Shields) são retratados na narrativa. Se no longa de Edwards reinava uma perspectiva mais humana e “do chão” sobre os conflitos entre os superseres, “escondendo-os” não por uma questão de suspense comercial mas de incredulidade humana sobre os eventos, a continuação já nos primeiros minutos declara seu interesse quase solitário sobre as criaturas, que aqui se multiplicam e dominam as atenções da tela a todo e qualquer instante. O chamariz da narrativa, afinal, é única e exclusivamente o grande combate entre Godzilla e seu nêmesis King Ghidorah, cujas batalhas são encenadas numa perspectiva da destruição quase idêntica às dinâmicas de luta de “Dragon Ball”, desconsiderando eventuais arredores para amplificar a potência dos atos e as evoluções de poder subsequentes – só o Godzilla deve ter umas três formas na história.

Mesmo o elenco humano de personagens subexiste neste atendimento dos kaijus e seus conflitos, como o drama principal que é encenado em cima de relações familiares disparadas e movidas pela passagem das criaturas. A exemplo dos protagonistas do filme de 2014, a família vivida por Kyle Chandler, Vera Farmiga e Millie Bobby Brown revela logo no início um trauma causada pela presença e passagem do Godzilla, mas aqui sua condução é gerida pelo debate subsequente à revelação deste e outros titãs, mal disfarçado numa questão ambiental que logo se mostra vaga e banalizada ao tom do bom e velho apocalipse mundial.

Fonte: B9

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