Montreal é um lugar certo no mapa dos amantes da música alternativa ou, graças ao Cirque du Soleil, de quem gosta de entretenimento em geral. Mas a cidade também quer entrar no mapa dos entusiastas de tecnologia e inovação, e o C2 (Commerce + Creativity) é o grande sinal desse esforço. O festival busca mostrar o que Montreal faz de melhor no setor de tecnologia além de conectar esse setor e o de entretenimento da cidade com lideranças de grandes empresas, ganhando cada vez mais relevância no circuito dos festivais de inovação.

Mas o C2 chama a atenção por ser um festival distinto dos outros. Os keynotes com líderes do mercado estão lá, como em outros eventos. Mas a proporção deles é bem menor, e as atividades interativas, onde o input e a presença ativa do público são importantes, ganham mais espaço na programação.

Experiências como o “slow lab” e o lab Noir, um workshop às escuras, permitem que a gente perceba a importância do pensamento crítico e da colaboração. E isso acontece de uma forma mais sensorial, o que permite uma maior absorção de conteúdo em comparação a um painel convencional.

E o networking também é incentivado, como mostraram os “Braindates” – encontros onde pessoas desconhecidas se juntavam para discutir um tema de interesse em comum. E a troca de contatos era facilitada, bastando os participantes encostarem seus badges para terem o e-mail ou telefone do novo amigo. Este networking ainda por cima foi incentivado através de gameficação, ou seja, além dos speakers de ponta, o C2 é um evento onde o participante também é um importante produtor de conteúdo.

Quem é que precisa saber contar histórias?

Se você pensou “roteiristas” como resposta, saiba que até mesmo a NASA tem se dedicado a aplicar técnicas de storytelling atualmente. O desafio da agência espacial passa por escolher entre coisas tão distintas como explorar asteroides para entender o surgimento do sistema solar até monitorar os níveis do mar e os impactos do aquecimento global. “Estamos em uma competição de ideias”, disse Paul Propster, estrategista da NASA.

Diante desse desafio, a agência precisa colocar cientistas e público em geral na mesma página, e empresas como Disney e Pixar tem a ajudado a alinhar sua comunicação. Utilizando a estrutura básica de storytelling dessas empresas, que conta com expressões conhecidas das histórias como “Era uma vez”, “Todo dia”, “Um dia”, “Por causa disso” e “Até que finalmente”, a agência tem conseguido obter uma comunicação muito mais efetiva com o público.

Branding na nova era

“Entrevistei 20 pessoas de referência no mundo, buscando uma definição do que é branding. Pensei que encontraria o Santo Graal. Consegui 20 respostas diferentes, o que é desconcertante”.

Foi assim que Debbie Milmann começou sua masterclass sobre a história do branding. Segundo a expert, que já trabalhou com várias marcas de grande porte, o branding existe desde os primórdios da humanidade: “Digo que as primeiras marcas surgiram há 10.000 anos atrás, quando começamos a usar maquiagem para ficar mais bonitos para Deus” ela descreveu no evento.

Para Milmann, o branding também é uma forma de entender comportamentos da sociedade. “Diz muito sobre nossas prioridades”, disse a consultora ao ressaltar o fato de que a primeira marca registrada do Reino Unido veio de uma cervejaria. E ao olhar para o futuro, é sobre prioridades que Millmann deixou seu recado: “O mais importante agora não é oferecer um novo formato ou um novo sabor (…) e sim fazer a diferença na vida das pessoas e fazer um planeta melhor” esclareceu.

O protagonismo jovem nos grandes desafios mundiais

Enquanto vemos uma onda de protestos relacionados a questões ambientais mundo afora, chamou atenção o número significativo de palestrantes jovens na programação do festival.

São Empreendedores de idade entre 10 e 17 anos que, trabalhando em questões relacionadas a diversidade, saúde e impacto ambiental, foram figuras marcantes no festival e tiveram falas contundentes.

Fundadora do movimento Zero Hour, Jamie Margolin foi bastante incisiva na C2. “A definição de insanidade segundo Einstein é tentar resolver o problema com a mesma mentalidade que o causou e é isso que líderes têm feito com o aquecimento global” disse a ativista, que conclamou o público à ação no evento: “Temos toda a tecnologia e precisamos resolver isso agora. Não há nada que não tenhamos”.

A fala de Margolin ressalta bem um dos motes do festival, diante de tantas possibilidades tecnológicas e desafios globais, ação é o que importa agora.

Quem tem medo de robôs?

“Inteligência artificial causará muitas mudanças na área de exames clínicos e medicina”, afirmou Martine Rothblatt, CEO da empresa de Healthtech United Theurapeuticals. Para ela, a possibilidade de usar a tecnologia para testar novos remédios transformará profundamente sua indústria.

Mas isso não quer dizer que haverá desemprego em massa: “[Fala-se em fim dos empregos] em todas as décadas dos últimos 50 anos” disse ela. Já para o cientista de dados e pesquisador de inteligência artificial Pedro Domingos, novos empregos surgirão: “Há 200 anos, 98% das pessoas trabalhavam no campo e hoje uma pequena porcentagem de nós está desempregado”. Aos olhos do pesquisador, a grande vantagem do ser humano diante das máquinas é a capacidade de aprender algo rápido; “Humanos aprendem fantasticamente melhor que algorítmos(…) Somos misteriosamente eficientes” declarou.

O poder do olhar

“Curiosidade é poder” disse Propster em sua fala. E isso serve tanto para orientar as pesquisas da NASA como para qualquer profissional navegar no mercado de trabalho atual. “Estar OK com estar desconfortável é importante” disse Sabrina Geremia, diretora do Google Canadá; “Em 1998 tínhamos 2.5 milhões de sites, e atualmente este número é de aproximadamente 2 bilhões. Muitos dos trabalhos relacionados à internet de hoje não existiam 15 anos atrás.”.

Para a executiva, o segredo para o sucesso no mercado de trabalho atual é adotar uma mentalidade de aprendizado contínuo além de dominar as skills corretas: “Sempre saber que você precisa aprender coisas novas” afirmou na C2.

Chegou a hora de agir

Nota-se no festival uma sinergia entre os temas abordados, o caráter interativo e a temática escolhida – O amanhã chegou. As conversas sobre aquecimento global, inclusão na força de trabalho e diversidades precisam virar ação urgentemente.

A experiência geral do festival foi bastante fluida. Com uma grande variedade de food trucks e muitos power banks à disposição de quem precisava carregar o celular. Conteúdo e interatividade sem filas, além de uma ótima sinergia entre negócios, entretenimento e arte.

A experiência do C2 está bastante recomendada por aqui. E para quem quiser saber mais, o vídeo da edição de 2020 já está disponível aqui.

Fonte: B9

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