Comissão deve sugerir que Executivo crie núcleos para debater influência de jogos eletrônicos

A Comissão de Educação deve apresentar uma indicação ao Poder Executivo para a criação de núcleos de debates sobre a má influência de jogos eletrônicos violentos, aliada a uma campanha de conscientização. A comissão discutiu sobre os jogos eletrônicos em audiência pública, nesta quinta-feira (23).

Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

Participantes admitiram que jogos eletrônicos violentos podem influenciar comportamentos

Durante a audiência, os participantes concordaram que os jogos eletrônicos violentos não são fator determinante para casos de violência e depressão, mas admitiram que podem agravar uma tendência ou influenciar comportamentos – principalmente dos jovens, que não têm o córtex cerebral completamente formado.

O diretor de Promoção e Fortalecimento dos Direitos da Criança e do Adolescente do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Washington de Sá, citou uma pesquisa realizada na Europa.

“Um adolescente teve as funções cerebrais mapeadas durante o uso de mídias para ver como o cérebro interagia. Depois de um tempo, verificou-se que ele teve perda de corpo estriado, ou seja, diminuição da estrutura cerebral. Isso traz limitações como dislexia, disgrafia, pois ele começa a perder habilidade com a escrita, e discalculia, o cérebro fica limitado também para fazer cálculos”, explicou.

Washington afirmou que a explosão de dopamina provocada por jogos eletrônicos em um cérebro em formação gera uma espécie de vício, pois o cérebro precisa cada vez mais desse estímulo. O mesmo efeito se observa na satisfação gerada pelo uso contínuo da internet e no consumo de pornografia. Um dos efeitos colaterais é a perda de sensibilidade e empatia. Para ele, é papel dos pais zelar pelo uso que os filhos fazem dos jogos eletrônicos.

A psicóloga clínica com especialização em Terapia Cognitiva Comportamental e Terapia Familiar Rafaella Holanda questionou se os jogos são responsáveis por gerar violência ou se outros fatores fazem com que o jovem use os jogos como fuga, em que o isolamento acarreta a falta de perspectiva com a vida. Rafaella disse que já viu crianças migrarem para os jogos por causa de inadequação na escola e alertou para o perigo de os pais acharem que filhos mais reclusos podem representar segurança contra a violência. “Os pais devem prestar mais atenção ainda nos jogos interativos on line que permitem conversas entre os participantes. O bullying virtual ficou comum. A solução é o maior vínculo escolar. Quando mais convívio, menos interação virtual”, disse.

Além dos jogos
O doutor em Fisioterapeuta e em Bioquímica Médica e neurocientista Renato de Paulo defendeu os jogos eletrônicos, que são usados para tratar doenças psicológicas como fobias e na recuperação de pacientes e no desenvolvimento psicomotor, mas citou pesquisa publicada pela revista científica PNAS, em que cientistas dos Estados Unidos avaliaram 24 estudos com mais de 17 mil pessoas entre 9 e 19 anos de idade em todo o mundo sobre a exposição à violência em videogames e casos de agressão. Os pesquisadores descobriram que os jogos estavam relacionados ao aumento nos comportamentos agressivos. Mas, segundo ele, o problema pode não ser apenas dos jogos.

“Infelizmente, nós estamos tendo a intoxicação, pelos pais, dos bebês, que são entretidos por tablets, por excesso de interação desde o início, que criam os jovens e adolescentes habituados com uma tela na frente do computador. Criança não precisa de entretenimento. Precisa de atenção.”

De acordo com o deputado Otoni de Paula (PSC-RJ), a comissão deve propor ao Poder Executivo a realização de uma campanha de conscientização e esclarecimentos em relação a jogos eletrônicos e a criação, pelo Ministério da Família, de núcleos de debates sobre o assunto em todo o país.

“A classificação indicativa desses jogos eletrônicos não tem sido suficiente. A conclusão que a gente chega é que não adianta proibir. Não adianta o Estado interferir. É necessário que a gente crie uma cultura, assim como conseguimos criar uma cultura anti-tabagista.”

O diretor de Promoção e Fortalecimento dos Direitos da Criança e do Adolescente do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Washington Horta de Sá, apoia a indicação. Ele defende que os jogos eletrônicos, a exemplo dos cigarros, deveriam ser vendidos com advertência sobre danos.

Fonte: Câmara dos Deputados

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