Em sua coluna, Henrique Rodrigues analisa os formatos e impasses na seleção de nomes para eventos culturais

Vivemos a era das curadorias. O termo, utilizado desde meados do século passado para designar o gerenciamento de exposições de artes visuais, se estendeu a outras áreas, apontando toda a complexidade inerente a essa função. Cabe ao curador realizar pesquisa, relacionamento, diálogo, seleção e combinação, fazendo todo o meio de campo entre a arte e o público.

Pensando bem, professores da área também fazem parte dessa lista, mas sem o conceito de refinamento e o “valor agregado” ao mundo das artes. Ou não? Talvez se a categoria tivesse mudado o nome de “professor” para “curador de personal content branding” não estivesse nessa penúria hoje. Aliás, a área de marketing, sempre antenada, já conta a atividade “curador de conteúdo” como um serviço bem valorizado.

Como toda atividade gourmetizada, o curador está em todas: na moda, no cafezinho, na degustação de água mineral, nos livros. Alguém que entende mais do assunto escolhe para você, que vai ter a sensação de exclusividade. E, com isso, ser curador garantiria certo status, tanto ao indivíduo que cura quanto ao consumidor. Essa prática de valorizar mais o indivíduo que escolhe do que o artista escolhido me faz lembrar de uns anos, quando todo mundo parecia querer ser DJ.

Na área da literatura, especialmente após a explosão de eventos literários nos últimos 15 anos, surgiu certo protagonismo para o escritor, que antes não aparecia tanto em público e não precisava dominar a difícil arte de falar para diferentes plateias. Mas também houve grande valorização da pessoa que seleciona os nomes para as feiras ou festas literárias. Hoje há diferentes formatos de eventos. Em alguns, a figura do curador pode ser determinante para que se ateste, especialmente para a mídia cultural, a qualidade do menu apresentado.

Assim, a identidade do evento, muitas vezes, fica mais ligada à figura do curador do que na qualidade dos artistas. E às vezes há exagero, pelo que venho acompanhando, e me parece que os patrocinadores gostam dessas grifes. Há umas semanas vi a notícia de um novo evento literário na Bahia, no qual o foco seria a produção local, mas a curadoria, já destacada, era do Sul Maravilha, numa contradição que é pouco contestada por tanta repetição. Aliás, em outro momento vou escrever sobre o bizarro termo “autor nacional”, que muitos costumam utilizar.

Seria muito fácil criar várias metáforas para definir o curador literário, ou trazer uns chavões bem tarimbados: o construtor de pontes da leitura, o maestro do pomar das letras, o mago da bibliodiversidade, o concatenador de sentidos, o arquiteto do pensar etc. Os louros de uma bela festa vão para a curadoria, mas quando algo dá errado todo mundo cai de pau no responsável pela seleção. O recente caso de um encontro com poetas do Instituto Moreira Salles, em que não foi convidado nenhum escritor negro, o massacre, especialmente nas redes sociais, foi muito mais nos curadores, que saíram do episódio com o carimbo de racistas, do que por uma ausência de políticas ou diretrizes do próprio instituto em relação à diversidade cultural. O projeto foi cancelado.

Há eventos que estão ligados diretamente aos proponentes do projeto nas leis de incentivo ou na busca de parceiros e patrocinadores. Como são pessoas físicas (e jurídicas) da área e criaram os projetos, fazem também as vezes de curadores das suas festas literárias – Flipoços, Fliaraxá, Fórum das Letras de Ouro Preto, para citar alguns, que têm a vantagem de acompanhar todo o histórico. Já em outros os curadores são contratados por um ano ou mais, como a Flip ou a Bienal do Livro do Rio, que reúne curadores diferentes para o grande volume de programações.

Há também aqueles casos cujo curador tem mais destaque do que os artistas participantes, fazendo questão de mediar todos os debates e estar à frente de qualquer notícia ou divulgação do evento, explicitada até nas filipetas, fôlderes ou cartazes, em que o seu nome aparece em letras garrafais antes de qualquer outro. Isso acontece muito também no meio acadêmico, em que sorrisos e afetos, não raro, escondem grandes egolatrias e rixas internas ou entre universidades.

De todo modo, creio que a grande dificuldade das curadorias está justamente naquilo que as confere esse valor: a responsabilidade sobre uma pessoa. Essa subjetividade, em que o curador é tratado como um criador, um artista (a obra dele seria, nessa analogia, uma lista de nomes), confere um falso poder que esconde um fato bem simples. Trata-se de uma prestação de serviço, afinal de contas.

Os eventos literários mais interessantes de que tenho participado, por acaso, são aqueles nos quais a curadoria é coletiva. De fato, por mais que uma pessoa tente acompanhar a área, se ficarmos só na literatura brasileira, há uma infinidade de nomes, estéticas, dicções com grande qualidade e que precisam de espaço. Costumo viajar pelo interior e me espanto como há tantos brasis dentro do Brasil, e sinto cada vez mais que só conheço uma pequena parte.

Além de ser muito difícil acompanhar tudo, vários artistas não saem das suas comunidades porque os grandes e médios eventos são focados nos nomes mais conhecidos. Lembro-me de uma reunião com um produtor de feiras literárias na região Norte há uns anos, que deu a suposta dica: “A primeira coisa é saber da agenda do Fulano, Beltrano e Cicrano” – esses eram os autores da moda naquele ano.

O modelo de curadoria coletiva traz muitas vantagens, porque é um processo de aprendizagem, de diálogo. Exige que cada um compartilhe suas escolhas e saia do seu conjunto de conhecimentos na área, ampliando-o. E se houver algo que dê errado, o peso também é dividido. A avaliação em equipe também facilita a identificação de pontos que possam ser melhorados para a edição seguinte. Um dos resultados mais buscados nos eventos, lindo de se declarar mais não tão fácil de aplicação, é a pluralidade. E qual a forma de se garantir um olhar plural, senão com um grupo de especialistas compartilhando perspectivas?

Há umas semanas foi dia de São Jorge, quando aqui no Rio se come a tradicional feijoada. No meu segundo prato, talvez já meio zonzo e propenso a associações arbitrárias, reparei em como parecia uma curadoria literária: cada item, sozinho, ficaria monotemático. Caso o arroz dissesse “tem qualidade se tiver só arroz”, ficaria sem gosto; só a farofa, seria bate-entope; só o feijão, pesado demais; só laranja nem seria refeição, mas sobremesa. Os corpos ocuparam o território do evento mantendo suas questões identitárias, promovendo o diálogo em círculo, um olhando para o outro. Esse compartilhamento formou o debate em conjunto, sem destemperamentos, só na soma. O que faltava em um havia no outro.

E talvez haja nessa alegoria uma solução para o embate das curadorias. A mistura e o diálogo de pratos e panelas pode render algo bom, lembrando que o objetivo é sempre oferecer ao público um prato literário saboroso. Observar a tia mexendo o caldeirão e cortando a couve pode ensinar mais do que aspirar ser um DJ de livros.

Fonte: Publish News

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