Apesar de seu sucesso se dar principalmente pela conquista de um público que é fã do cinema de ação mais comercial, a saga “John Wick” sempre atingiu outros nichos. O pôster da continuação, “John Wick: Um Novo Dia Para Matar”, já evidenciava isso ao referenciar “Two-Gun Gussie”, filme de Harold Lloyd de 1918. As cenas iniciais da projeção, então, cimentavam mais ainda a ideia: antes da aparição do protagonista, o público assiste a um curto trecho de uma obra de Buster Keaton projetada em um prédio de Nova Iorque. O público dito “cinéfilo” também tem certo fascínio pela saga do mercenário aposentado vivido por Keanu Reeves.

Tanto Keaton quanto Lloyd marcaram o cinema mudo e foram revolucionários da comédia (e do cinema) em seus tempos. Keaton, que era visto como grande rival de Charles Chaplin (apesar de, diferente de Chaplin, ter morrido esquecido e falido), foi inclusive um dos pioneiros do cinema no uso do corte como recurso de deslocamento temporal. O que conecta a saga “John Wick” a Keaton, Lloyd e até Chaplin, porém, não é nenhuma revolução técnica ou o humor, e sim a fisicalidade.

Assim como “Missão: Impossível – Efeito Fallout”, a saga de John Wick também faz um resgate de um cinema menos dependente da montagem e dos efeitos especiais e mais ancorado em feitos reais, algo que Stahelski celebra principalmente no segundo filme, quando filma longas cenas de ação sem cortes, em planos abertos, nos mostrando Wick enfrentando hordas de inimigos apenas com coreografia, sem truques como os usados por diretores mais atraídos pela digitalização da imagem e pelos trêmulos movimentos de câmera como disfarces para a ausência de uma mise-en-scène.

O diretor Chad Stahelski (à frente) no set do filme

Essa escolha resultou na conquista da crítica e de um público mais saudosista em relação ao cinema de ação. Em “John Wick”, diferente do que vemos em séries como “Transformers” e “Velozes e Furiosos”, há uma maior preocupação com o registro de imagens que pareçam críveis – o que de forma alguma é, necessariamente, um demérito das duas franquias de ação protagonizada por robôs e carros. É até engraçado pensar nessas escolhas, pois o que vemos no terceiro capítulo da saga Wick é praticamente uma puxada de tapete nas expectativas desse público: “John Wick 3: Parabellum” é não só o capítulo mais voltado para humor da franquia, como também o que mais se apega aos atalhos do cinema para potencializar sua trama e também o que mais aposta nos efeitos especiais para proporcionar uma deliciosa mentirada. As referências e reviravoltas parecem surgir apenas como alicerce para infindáveis cenas de ação.

Acompanhando os acontecimentos do fim do segundo capítulo, quando Wick termina sendo sentenciado à morte com o valor de 14 milhões de dólares sobre sua cabeça, era praticamente inevitável que o terceiro episódio da série não se tornasse o mais surtado até então. Stahelski, portanto, se desprende completamente de boa parte das ideias que atraíram um público mais “cinéfilo” (com destaque para as aspas) para os cinemas e aposta na diversificação do modelo de contar história. Alguns sentirão falta de uma maior construção intelectual em cima da imagem, mas, ora, quem não gosta de, vez ou outra, alternar um cinema mais reflexivo com “tiro, porrada e bomba”? “Parabellum” aposta justamente na diversão, mesmo que ainda honre, de certa forma, uma tradição de um cinema mais clássico por esse apego à mise-en-scene acima de montagens frenéticas e câmeras que se movimentam para confundir o espectador.

Temos reviravoltas malucas e rocambolescas, vilões explicando seus planos para os mocinhos, ninjas motoqueiros batalhando na estrada a 100 km/h… “John Wick 3: Parabellum” abraça o absurdo, que era o único caminho possível após o fim do longa anterior, e com isso cria uma experiência diferente. As regras da física são postas de lado em prol de outras regras que, no universo criado em 2014, são as únicas que importam: as do mundo do crime.

Fonte: B9

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