Em seu primeiro artigo para o PublishNews, João Scortecci​, editor, gráfico, livreiro e diretor setorial da Abigraf / SP, falou sobre como as crises podem virar grandes oportunidades de negócio

Olhando para o atual cenário do varejo de livros no Brasil, vejo duas crises. Uma sistêmica e outra pontual. Ambas trouxeram o caos e o desequilíbrio ao negócio. A primeira delas chama-se crise Brasil, que assola o país desde 2013 e levou à recessão e ao desemprego. Em 12 anos, o negócio do livro encolheu 21%, segundo números da Fipe.

O setor – aquele que sobrou às duras penas – encolheu. Isso significa menos investimento, redução drástica na oferta de novos títulos e perda de mão-de-obra qualificada. Para crises sistêmicas não bastam ajustes, otimismo e esperança. É preciso, mais do que tudo, que o país volte a crescer e sua economia encontre novamente o caminho do círculo virtuoso.

A segunda crise, pontual e previsível, veio com os pedidos de recuperação judicial das duas maiores redes de livrarias do país: Saraiva e Cultura.
Além dos efeitos da crise Brasil, as razões do colapso das duas maiores redes de livrarias foram: dimensionamento equivocado do potencial de crescimento e expansão do próprio negócio; abertura de superlojas, as chamadas mega stores, com custos estratosféricos e insanos; má gestão; guerra de preços com descontos abusivos e, principalmente, fragilidade do próprio modelo de negócio, hoje ultrapassado, conhecido como “consignação” no mercado de livros.

Para essa crise – a de número dois – existe o hoje e o momento que me parece oportuno. O negócio do livro está em ebulição e – usando palavra do editor Marcos Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) – sendo refundado. O mercado está agitadíssimo. Entidades “se falam” e o que antes era comodismo e inércia do setor ganha nova postura, com ações, coragem e amor ao livro. O surgimento de novas livrarias, pequenas e segmentadas, e o diálogo franco e aberto sobre o negócio do livro tem sido observado e antenado no mercado.

O produto livro precisa – urgentemente – recuperar o seu preço justo. Não existe como remunerar autores, editoras, gráficos, distribuidores, livrarias e profissionais do livro sem o equilíbrio. O preço médio de capa do livro no Brasil vem caindo desde 2004, apesar dos custos de serviços e insumos crescentes e indexados.

O livro não está em crise. O mercado, sim. Somos frágeis! Nela – falo da fragilidade – depositamos a força por novas atitudes. As pessoas continuam lendo e mais do que nunca continuam apaixonadas por uma das mais incríveis invenções da humanidade: o livro.


* João Scortecci é escritor, editor, gráfico e livreiro. Diretor Presidente do Grupo Editorial Scortecci. Foi Conselheiro de Humanidades, da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), Lei Rouanet, do Ministério da Cultura, de 1997 até 2006. Foi diretor da União Brasileira de Escritores, em três gestões e Diretor Adjunto e Vice-Presidente da Câmara Brasileira do Livro, em três gestões. É Diretor Setorial da Abigraf / SP, editor do Portal Amigos do Livro e coautor do livro Guia do Profissional do Livro – Informações importantes para quem quer escrever e publicar um livro, obra na 17ª Edição.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do PublishNews

Fonte: Publish News

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