Com direito a áudio, reportagem de Amanda Audi para o site The Intercept Brasil mostra: Denian Couto ameaçou a ex-noiva de morte. Diante da repercussão do caso, jornalista pediu afastamento das afiliadas da Record TV e Jovem Pan

O jornalista Denian Couto está afastado de suas funções da Record TV Paraná e Jovem Pan de Curitiba. Apresentador nas duas emissoras mantidas pela Rede Independência de Comunicação (RIC), ele ficará fora do ar por tempo indeterminado. O motivo para a ausência no rádio e na televisão se deve ao fato de ele ter ameaçado de morte a produtora Giuli Kuiava, sua ex-noiva e também contratada da RIC. “Vou te matar se você não calar a sua boca”, disse o comunicador em ligação gravada por Giuli e divulgada pelo site The Intercept Brasil, em reportagem assinada por Amanda Audi.

Mais do que divulgar o áudio em que revela ao público a ameaça de morte feita por Denian Couto, a matéria do Intercept traz informações alarmantes em relação à vida afetiva do jornalista, que é funcionário da RIC desde 2016. O site destaca que o profissional é denunciado por outras duas ex-namoradas — que não tiveram suas identidades divulgadas. Uma afirma que se machucou após ser empurrada por ele. A segunda diz que recebia ameaças e era agredida verbalmente. Agressão verbal foi algo também sofrido por Giuli Kuiava. Na gravação, ela é chamada de “filha da puta, vadia, retardada” e “burra do caralho”.

Detalhe. Produtora já tinha registrado boletim de ocorrência contra o apresentador em janeiro

O material colhido e a apuração realizada por Amanda Audi fizeram com que a equipe do site The Intercept cravasse que “Jovem Pan e Record protegem [o] apresentador sem ‘mimimi’”. Termo referente às opiniões polêmicas e contundentes rotineiramente proferidas por Denian Couto nos microfones. Outro fator – e talvez o mais importante – para o veículo de comunicação online cravar tal conduta por parte das marcas mantidas pela RIC é que Giuli Kuiava havia registrado boletim de ocorrência contra o ex-noivo em janeiro. Apesar da denúncia, o comunicador seguiu normalmente em suas funções na empresa de comunicação paranaense até a tarde desta quinta-feira, 28.

Silêncio ensurdecedor

Na matéria, Amanda Audi informa que, procurada, a RIC não respondeu aos seus questionamentos. O mesmo ocorreu com a reportagem do Portal Comunique-se, que tentou contato via assessoria de imprensa que atende ao grupo de mídia. Perguntas foram enviadas por e-mail na manhã de quinta, mas seguem sem respostas até o momento. “Em janeiro, Giuli já tinha registrado boletim de ocorrência contra Denian. Por que o Grupo RIC não fez nada?” e “O Grupo RIC considera normal manter em seus quadros de colaboradores um apresentador que diz ‘vou te matar’ para uma mulher?” foram duas das indagações encaminhadas à empresa.

Horas depois de a reportagem de ser publicada, o grupo contratante de Denian Couto se pronunciou. Em nota oficial divulgada em seu site, a RIC informa que recebeu o pedido de afastamento feito pelo apresentador. O conteúdo cita que, dessa forma, ele seguirá fora por tempo indeterminado da Record TV Paraná e da Jovem Pan Curitiba, além da revista Top View, onde era colunista. Decisão tomada “para que ele possa exercer a sua defesa em processo divulgado recentemente”. A companhia sinaliza que outras atitudes poderão ser tomadas após “manifestação definitiva da Justiça”.

Só agora? Grupo RIC não explicou a razão de afastar o jornalista somente nesta semana. A decisão foi tomada horas depois de reportagem sobre a ameaça de morte ser divulgada

A empresa pontua, em outro trecho da nota oficial, que não defende a agressão de ninguém, ainda mais em questões relacionadas a gênero. “Com mais de 30 anos de tradição e credibilidade, o Grupo RIC se pauta por sólidos princípios éticos, na busca de um país mais justo, em que nenhum cidadão seja agredido em função de raça, credo ou gênero”, afirma a RIC, que, ironicamente, não menciona o nome da produtora Giuli Kuiava em nenhum momento. O único colaborador da casa citado pelo material foi o apresentador afastado Denian Couto.

A produtora Giuli Kuiava. Nota oficial da RIC ignorou situação enfrentada pela funcionária (Imagem: arquivo pessoal)

Fake news X jornalismo

Certamente acuado em ver a ameaça de morte divulgada na imprensa, Denian Couto partiu para o ataque contra o órgão emissor da denúncia. Por meio de seu perfil no Twitter, rede social em que divulgou seu posicionamento, o jornalista disseminou fake news. Sem explicar porque jurou que iria assassinar a ex-noiva, ele se refere à reportagem de Amanda Audi como “fraude travestida de jornalismo escrita pelo panfleto de esquerda The Intercept Brasil”. No material que serve como linha de defesa, ele garante que o conteúdo apresentado pelo site é “falso e manipulado”.

O apresentador não disse, contudo, quais trechos da matéria são irreais. Também não se explicou em relação ao áudio em que ameaça de morte e ofende Giuli Kuiava com palavras de baixo calão. Amanda Audi — em conversa com este editor — garantiu que o apresentador já tentava desqualificar seu trabalho antes mesmo de o material sobre ele ir ao ar. Segundo relata, o contratado da RIC insinuou que ela cometeria um erro e que estava “contaminada” pelo simples fato de conhecer Giuli Kuiava.

Matéria mentirosa? Denian Couto e advogado preferiram criticar a reportagem do site The Intercept. Eles não apontaram quais seriam os erros que foram publicados

Anteriormente à divulgação de sua nota, Denian evitou conversar diretamente com a reportagem do Portal Comunique-se. Indicou que o contato deveria ser feito junto a seu advogado, Adriano Bretas. O responsável pela defesa do jornalista seguiu a mesma linha que viria a ser adotada por seu cliente. Atacou a reportagem do site The Intercept, mas não explicou o que levou o apresentador a afirmar que iria matar a ex-noiva. “A matéria é mentirosa. Não é assim que a Justiça tem visto esse caso, tanto é assim que foi concedida uma liminar. Infelizmente, como corre em segredo de Justiça, não posso dar detalhes. O que a imprensa viu é só um recorte. A verdadeira vítima é outra pessoa”, disse o advogado.

Por atender um comunicador, Adriano Bretas tentou demonstrar que tem conhecimento de como funciona o jornalismo. Aliás, reservou-se no direito de julgar o que é bom e o que é ruim na área. “Você que escreve para um veículo especializado em comunicação entenda: se está atingindo a reputação de quem não cometeu crime. O áudio é uma armação recortada do contexto”, reclamou. Com tal posicionamento, a reportagem do Portal Comunique-se enviou mais perguntas ao advogado, que se limitou a dizer que não poderia falar muito por causa do processo (Giuli Kuiava X Denian Couto) correr em segredo de justiça. Mesmo assim, enfatizou que, segundo sua visão, a “matéria é mentirosa”.

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Jornalista preferiu atacar a reportagem de Amanda Audi, que divulgou o áudio comprometedor (Imagem: reprodução/Twitter)

Perguntas ao advogado

A saber, a reportagem do Portal Comunique-se enviou os seguintes questionamentos — que não foram respondidos — ao advogado Adriano Bretas:

  • No áudio divulgado pela reportagem do site The Intercept, é possível ouvir “eu vou te matar se você não calar a sua boca”. Em que parte esse e outros trechos estão fora de contexto?
  • Qual seria, então, o contexto correto? Qual era o assunto discutido na ligação?
  • O senhor fala que a “vítima é outra pessoa”. Quem é essa pessoa? O Denian Couto? Por quê?
  • O senhor fala em “matéria mentirosa” e que o áudio em questão não passa de uma “armação”. Nessas condições, o Denian Couto irá processar o site The Intercept e a jornalista responsável pelo conteúdo?

Desabafo de Giuli Kuiava

Em seu perfil no Facebook, Giuli Kuiava tornou pública a sua versão. Sem citar diretamente Denian Couto, a funcionária da RIC TV não poupou críticas a um ex-namorado. “Vivi um relacionamento abusivo. Descobri mentiras doentias, fui xingada dos nomes mais baixos que vocês possam imaginar. Palavras que nenhuma mulher no mundo, sob hipótese alguma, deveria ter que ouvir. Fui ameaçada. Sim, ele disse – com todas as letras – ‘eu vou te matar’”, publicou. A produtora ainda informou que o fato de trabalhar na imprensa a fez lembrar de casos de mulheres assassinadas por ex-companheiros.

Revelando que está em tratamento por causa do nada saudável relacionamento, a produtora avisa que se sente mais forte e que espera de alguma forma ajudar quem enfrenta situação similar. “Ainda tento entender o porquê (se é que existe um) estou passando por tudo isso”, pontuou a profissional que ouviu que poderia ser assassinada — além de ser alvo de xingamentos — pelo jornalista que, por ora, segue como contratado da RIC.

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Fonte: Comunique-se

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