No último sábado (27), Robert Bowers, de 46 anos, invadiu uma sinagoga em Pittsburgh e atirou nos fiéis que acompanhavam o culto judaico. Segundo testemunhas, enquanto atirava nas vítimas, Bowers gritava: “Todos os judeus devem morrer”. A ação resultou em 11 mortes, incluindo 4 policiais, e é considerado o ataque mais fatal na história da comunidade judaica nos Estados Unidos, de acordo com as autoridades norte-americanas.

As investigações sobre Bowers conduzidas por procuradores federais levaram, entre outros pontos, à ligação do atirador ao Gab, rede social semelhante ao Twitter que é formada majoritariamente por apoiadores da extrema-direita.

Criado em 2016 por Andrew Torba, ex-CEO de uma empresa de tecnologia e publicidade chamada Kuhcoonc (mais tarde renomeada Automate Ads), o Gab conta com 710 mil usuários, dos quais 175 mil são brasileiros. A proposta do site é ser um lugar para o discurso livre e que permite de tudo, desde comentários sexistas até articulações do grupo de ultradireita Right Wing Dev Squad, como aconteceu durante os embates em Charlottesvile, no ano passado.

O perfil de Bowers no Gab é cheio de referências à fake news, teorias da conspiração e muitos insultos à comunidade judaica. Sua própria biografia no site traz a frase: “Os judeus são filhos de Satanás”.

Na rede social, o atirador encontrou uma comunidade inteira com pensamentos semelhantes aos dele, repostando mensagens de partidários nazistas e endossando o discurso de ódio contra os judeus.

Esse cenário levantou novas discussões sobre a relação entre redes sociais, discursos de ódio e o evidente crescimento da extrema direita em todo o mundo.

Terrorismo Estocástico

Um dos pontos levantados pelo artigo “Why social media is friend to far-right politicians around the world”, do The Verge, fala sobre o conceito de Terrorismo Estocástico. Definido pela cientista de dados Emily Gorcenski como “o uso da comunicação em massa, pública, geralmente contra um indivíduo ou grupo em particular, que incita ou inspira atos de terrorismo que são estatisticamente prováveis, mas acontecem aparentemente ao acaso”, a expressão define os atos de violência derivados da excessiva exposição às falsas notícias, informações manipuladas e conspirações amplificadas por qualquer meio, seja pela mídia tradicional ou pelas rede sociais.

Entre as mensagens postadas pelo atirador em seu perfil do Gab, algumas citam teorias conspiratórias de que a caravana de imigrantes mexicanos a caminho dos Estados Unidos estaria sendo financiada pelo bilionário judeu George Soros, que também chegou a ser alvo de teorias de ativistas brasileiros de direita ao ser acusado por eles de ser “esquerdista” por financiar ONGs de defesa de direitos humanos, como os institutos Sou da Paz e Igarapé, e veículos de investigação jornalística, como a Agência Pública.

Essa teoria da ligação entre soros e os imigrantes mexicanos tem sido largamente disseminada nas redes sociais, por republicanos como o congressista da Flórida Matt Gaetz, e também pela Fox News. Isso, aliado ao discurso alarmista de Donald Trump, tem feito muitos americanos enxergarem a caravana de imigrantes como “a principal ameaça existencial que a América enfrenta no período que antecede as eleições de 2018”.

Na verdade, a caravana está a semanas de distância da fronteira entre os Estados Unidos e o México e, quando chegarem lá, é bem provável que as pessoas se entreguem legalmente pedindo asilo. Em outras palavras, a situação não é nem de longe a ameaça à segurança nacional que Trump alega.

A disseminação de conspirações e a ascensão da retórica anti-imigração em todos os tipos de mídia alimenta os pensamentos de ódio e preconceito. A ação de Bowers é vista como um ato individual e aleatório. Mas é exatamente isso que define o Terrorismo Estocástico.

Redes sociais e liberdade de expressão

O discurso de ódio não está restrito às plataformas como o Gab. Todas as redes sociais estão infestadas por postagens que destilam preconceito, violência e ameaças. E nem mesmo o acontecimento dessas ações violentas tidas com aleatórias gera qualquer impacto nesses discursos.

Na segunda-feira, dois dia depois do ataque à sinagoga, uma rápida pesquisa pelo Instagram com a palavra “judeus” apontava uma enxurrada de imagens e vídeos anti-semitas, postados justamente na sequência do tiroteio. No total, foram mais de 11.696 mensagens com a hashtag # jewsdid911, alegando que os judeus haviam orquestrado os ataques terroristas de 11 de setembro. Outras tags faziam referência à ideologia nazista, incluindo o número 88, uma abreviação usada para a saudação nazista “Heil Hitler”.

SegundoSamuel Woolley, pesquisador de mídia social que trabalhou no estudo, entre agosto e setembro deste ano, os ataques aos judeus aumentaram consideravelmente no Twitter, tendo George Soros como um dos principais alvo. Dos mais de 7 milhões de tweets analisados, cerca de 1/3 veio de contas automatizadas (os famosos bots).

Em meio a esse cenário, grandes empresas como Facebook e Twitter patinam em projetos para mostrar resultados efetivos no combate ao discurso de ódio em relação à segurança de dados, combate às fake news, etc. Realmente, anúncios sobre os esforços dessas plataformas são noticiados quase que semanalmente, assim como os resultados que começam a surgir, mas ainda há muitas dúvidas sobre o posicionamento dessas empresas.

Mas o que as empresas de tecnologia podem fazer para conter o discurso de ódio? Essa é a pergunta que, na verdade, as próprias gigantes tecnológicas têm feito à si mesmas.

Um dos grandes embates refere-se à liberdade de expressão. Quem posta o que quer nas redes sociais o faz assegurado pelo direito à liberdade de expressão. Esse direito é assegurado em inúmeros tratados internacionais, entre eles a Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948), a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (OEA, 1969) e o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (ONU, 1966), dos quais o Brasil é signatário.

Porém, a liberdade de expressão não é um direito absoluto a ser garantido em detrimento dos demais direitos. Os mesmos instrumentos internacionais citados acima também indicam que há de existir a proibição da propaganda em favor à guerra, a apologia do ódio nacional, racial ou religioso, a apologia à violência, entre outros. Assim, a liberdade de expressão não dá direito ao discurso de ódio.

Com isso, parece fácil esperar que plataformas como o Facebook criem sistemas de identificação desses discursos de ódio e simplesmente os eliminem de suas redes. Mas sabemos que isso ainda não é o que acontece e (sem criar teorias conspiratórias) questionamos o porquê.

No caso do atirador de Pittsburgh, depois que o conteúdo das postagens de Bowers no Gab foi divulgado, as empresas parcerias do site encerraram os negócios, entre elas o PayPal, a Stripe e o GoDaddy.

O site foi desativado na segunda-feira, enquanto seu fundador prometia, via Twitter, que o Gab vai sobreviver ao que ele chama de censura.

Fonte: B9

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