Crédito: JOSEP LAGO/AFP/JC

Por Hadassah Zucoloto

A terça-feira amanheceu agitada para os brasileiros amantes do futebol europeu. O jornal espanhol “Sport” divulgou que o Barcelona deve retirar o título de embaixador de Ronaldinho Gaúcho após ter conhecimento do apoio do jogador a Jair Bolsonaro. O clube pretende afastar aos poucos o ex-craque das atividades exercidas como representante – especialmente amistosos, dos quais ele participa frequentemente, e eventos, tanto da marca quanto de patrocinadores.

Isso tudo porque, no dia 6 de outubro, véspera do primeiro turno, Ronaldinho publicou uma foto com a camisa do Brasil que tem estampada seu nome e o número 17, o mesmo do candidato do PSL à presidência. Na legenda, o craque diz que deseja “um Brasil melhor”, com “paz, segurança e alguém que nos devolva a alegria”.

A repercussão foi grande. Até o momento, a imagem tem 2,2 milhões de curtidas e 102 mil comentários. Apesar de ter quase 38 milhões de seguidores, os posts de Ronaldinho raramente ultrapassam a marca de 1 milhão de curtidas. Segundo informações do UOL Esportes, o Barça recebeu uma grande quantidade de e-mails, ligações e menções em redes sociais a respeito do tema, com críticas severas – não só de brasileiros – à atitude de Ronaldinho.

Diante de tanto repúdio, a diretoria do clube catalão, apesar de não se posicionar publicamente sobre o assunto, está revoltada e quer desvincular sua imagem a de Ronaldo, assim como a de Rivaldo, também nomeado embaixador. Isso encerraria o acordo comercial estipulado entre as partes e daria certo prejuízo financeiro aos dois, que recebem uma quantia pelas aparições especiais. Mas por que o Barcelona tomaria uma atitude tão extrema com dois ídolos, extremamente vitoriosos e responsáveis por grandes conquistas, por razões políticas que não envolvem seu país?

Princípios morais adversos

O problema não foi o posicionamento em si ou pedir voto democraticamente para determinado partido. O Barcelona vê uma grande incompatibilidade entre os valores do clube e os de Jair Bolsonaro, por isso não quer ter ligação com personalidades que defendem a candidatura do presidenciável. Para eles, o brasileiro tem “posições totalitárias contra a defesa dos direitos humanos, independentemente do que será sua ação governamental”.

O Sport destacou que as atitudes e discursos homofóbicos, misóginos e racistas de Bolsonaro, ao longo de seus 30 anos de carreira política, são inaceitáveis para a cúpula da equipe. Além disto, o Barça é um dos times que mais se posicionou internacionalmente com posições opostas às pregadas pelo candidato do PSL, tendo uma relação antiga contra regimes de tirania como os que Jair tanto defendeu e ainda defende.

Luta histórica contra a ditadura

O posicionamento do Barça segue o da Catalunha, que repudia o autoritarismo e a ditadura militar. Durante o governo do ditador Francisco Franco (1939-1975), foram proibidas todas as formas culturais que não fossem genuinamente espanholas. O “regime franquista” reprimia duramente as manifestações das populações de outras regiões e seus costumes e linguagens próprios.

Conforme os ideais fascistas, disseminados por Franco, tomavam conta da população, o clube sofreu com as diversas tentativas de diminuir a identidade catalã: seu escudo, por exemplo, foi modificado para retirar duas das listras vermelhas que, em cima de um fundo amarelo, formavam a bandeira da Catalunha. Seu nome passou de “Futbol Club Barcelona” para “Club de Fútbol Barcelona”, em uma versão totalmente espanhola.

Nos anos 50, o exército de Franco matou o presidente do Barcelona, Josep Sunyol. A partir daquele momento, a ordem era de que todos os presidentes do Barcelona deveriam ser escolhidos pelo ditador. O Barcelona ficou por 35 anos sem o direito de escolher o seu próprio presidente.

Mas tentativas de diminuir o orgulho e a identificação catalã foram em vão. O Barcelona tornou-se o símbolo da resistência do povo contra a ditadura e o Camp Nou era como um “refúgio”, uma fortaleza onde eles podiam ser quem realmente queriam e não o que era imposto pelo governo espanhol. “O Barça sempre esteve com a liberdade de expressão e a democracia. São valores que o Barça defende historicamente” disse, em uma oportunidade, o presidente do time, Josep Maria Bartomeu.

Tendo em vista o viés histórico do Barcelona contra a ditadura, é impossível que o clube queira atrelar sua imagem a ex-jogadores, mesmo que ídolos, que defendam um candidato como Bolsonaro. Em entrevistas, ele já deu declarações polêmicas como “a ditadura foi um período muito bom para o país” e “o erro da ditadura foi torturar e não matar”.

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