10 de agosto de 2018 – 10h06

Em 1986, cientistas suecos perguntaram a motoristas norte-americanos “você se considera um motorista com habilidade acima da média?” e mais de 80% responderam “sim”. Claro, esse resultado matematicamente absurdo teve menos a ver com estatística e muito mais com os vieses cognitivos que influenciam nosso dia-a-dia. E é por isso que – mesmo sem um estudo oficial sobre o assunto – podemos facilmente inferir que uma pesquisa perguntando “você se considera acima da média em lidar com temas ligados a gênero no trabalho?” teria um resultado bastante semelhante.

 

Mas quando o relatório de 2017 da consultoria McKinsey “Women in the Workplace” mostra que 40% das mulheres norte-americanas concordam que já foram prejudicadas por seu gênero (vs. 8% dos homens), vemos mais um indício de como não se lida bem com o tema, e que ainda temos um longo caminho a percorrer, mesmo que a impressão seja de que vemos cada vez mais homens prestando atenção. Em um painel realizado na Grey NY para o mês da história da mulher, tive a oportunidade de discutir com colegas mulheres e homens as barreiras para se criar um ambiente neutro onde todos possam prosperar igualmente. E é impressionante como foi possível perceber no auditório que só o fato de escutar as perspectivas de todos já nos aproxima e promove um espírito de igualdade.

No entanto, só discutir não é o mesmo que ouvir de verdade. E o que vemos no mundo real é que mesmo quando homens ouvem e suportam um ambiente de igualdade, existe um elemento crucial que impacta o potencial de termos mais empatia e justiça: o autoconhecimento. Ou a falta dele.

É absolutamente humano se distanciar de injustiças e sentimentos ruins – ouvir histórias de má conduta e pensar como “aquele outro cara” foi desrespeitoso com mulheres. No entanto, alguns destes mesmos homens bem-intencionados capazes de identificar desrespeito nos outros também acabam cometendo pequenos (ou médios, ou grandes) atos de desrespeito, não percebendo que eles também são parte do problema. Eles aprendem a identificar injustiça nos outros, mas não conseguem vê-la nas suas próprias ações.

Embora haja muitos homens com boas intenções para gerar mudança, todos temos vieses. E o verdadeiro problema é não sermos capazes de identificar nossos próprios vieses e as pequenas e grandes hipocrisias que vêm deles. Enquanto não conseguirmos identificá-los, nunca vamos conseguir fazer um esforço consciente para nos libertarmos deles. E por isso, autoconsciência pode ser a chave, a próxima evolução, para homens que querem contribuir com uma mudança de verdade.

Todos acreditamos que somos ótimos ouvintes, mas a verdade é que só prestamos atenção de verdade às informações que reforçam nossa percepção de mundo – e bloqueamos os fatos desconfortáveis

Com isso em mente, tentei imaginar alguns pensamentos e comportamentos que um homem mais autoconsciente pode ter e que podem gerar um grande impacto no ambiente de trabalho.

Ter consciência da nossa programação cultural. É inquestionável que o comportamento individual é influenciado pelo comportamento social. Mas um homem mais autoconsciente consegue identificar quando é a cultura falando (comportamentos herdados, papéis pré-estabelecidos de gênero, pressão do grupo) ao invés dele próprio, e não deixa esses fatores culturais tomarem o controle. Ele está constantemente exercitando uma “visão de fora” que dá uma perspectiva diferente sobre suas próprias ações. Por exemplo, quando me mudei para NY, acredito que experimentei um pouco dessa perspectiva e da sua importância; buscando evitar cruzar limites, me vi “lendo” as nuances culturais cotidianas no comportamento do ambiente de trabalho, e naquele momento os novos limites e códigos eram bem evidentes. O problema é que é muito fácil perder isso se não exercitarmos, e eu vi essa perspectiva desaparecer conforme me acostumei com a nova realidade.

Ter consciência dos seus “pontos cegos”. É fácil identificar vieses nos outros. Identificá-los em nós mesmo é uma história diferente e muito mais difícil. Mas um homem mais autoconsciente é capaz de ver as “escorregadas” comuns que acontecem no dia-a-dia com outras pessoas e fazer um “autocheck” para entender se alguma vez também já fez isso. Ele também sabe que isso é um processo – admite quando falha e melhora sua atitude. E se é tão fácil reconhecer um viés em outra pessoa, por que não ajudar os outros a identificá-los e trazer o assunto à tona de uma maneira construtiva? Se a cultura é um grande fator de influência, é preciso um esforço coletivo e responsabilidade para desprogramá-la.

Ter consciência do desconforto. Todos acreditamos que somos ótimos ouvintes, mas a verdade é que só prestamos atenção de verdade às informações que reforçam nossa percepção de mundo – e bloqueamos os fatos desconfortáveis. É preciso um esforço ativo para exercitar empatia, levar o interlocutor a sério e prestar real atenção no assunto, mesmo que (ou especialmente se) confronte nossa maneira de pensar. É por isso que, mesmo sendo tão duro e difícil para todos ouvirmos um relato chocante (como o de Salma Hayek no caso Harvey Weinstein), um homem mais autoconsciente sabe a importância de ativamente ir a fundo no assunto, conversar com outras pessoas sobre isso e tentar se colocar no lugar da pessoa, ao invés de seguir superficialmente como muitos homens (incluindo eu) fizeram.

Um comportamento mais autoconsciente parece vital para gerar igualdade no ambiente de trabalho, mas é importante termos em mente que o que isso quer dizer para cada homem é diferente. O que funciona para uma pessoa não funciona para todos. Mas se estivermos realmente comprometidos com progresso, todos devemos nos perguntar “como eu estou me comportando – e como posso mudar meu comportamento se (e quando) eu estou sendo injusto?”. Esse é o começo de uma jornada pessoal.

E especialmente na indústria da comunicação, cuja força está na diversidade e mentalidade aberta – mas ainda vê muitos egos – essa vontade e humildade de admitirmos para nós mesmos nossas próprias imperfeições parece ainda mais crítica.

Fonte: Meio e Mensagem

Os textos, informações e opiniões publicados neste espaço são de total responsabilidade do(a) autor(a). Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Central da Pauta.

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