10 de julho de 2018 – 15h44

Crédito: gil7416/iStock

Lá vai o menino a remar o seu Morey Boogie Mach 7-7. O nariz coberto de pomada branca que, inevitavelmente, passava a impressão de ele estar com um esparadrapo grudado na fuça, o cabelo tostado pelo sol, com o toque grudento da parafina, a marra tola. Ele chega no outside e percebe tarde demais que é o único da sua espécie. Não tarda para que as provocações comecem; “sabonete de baleia” é a única publicável. Ele finge não ouvir, percebe uma onda no horizonte — a preferência é clara – e se prepara para descer, em vão. É rabeado sem dó e ouve os gritos de que não vai pegar nem marola por ali. A marra rodopia e se esvazia no ar como um balão de festa mal amarrado. Ele sai de lado. De agora em diante, vai escolher onda como uma hiena na savana. Quando os leões derem mole, ele há de arrumar um jeito de abocanhar a sobra.

Relembro o começo de bodyboarder, em meio à polêmica sobre a piscina de ondas do Kelly Slater. O mundo do surfe parou no dia do campeonato no Surf Ranch. Embasbacados, todos olhavam a transmissão das imagens daquela máquina perfeita, enquanto frases de efeito eram proferidas: “o futuro do surfe começa hoje”, “nada será como antes”, “é uma nova era”. Tudo dentro do roteiro esperado. Logo depois, veio um campeonato de surfe em Itaúna, Saquarema. E lá estavam os melhores surfistas do mundo em um Brasil que resolveu desencantar e soltar ondas de gala. Com uma diferença: ao contrário do Surf Ranch, essas eram imprevisíveis. Exigiam dos competidores a leitura de mar, a estratégia de remada, a corrida pela preferência. Não demorou muito para começarem os embates entre o surfe raiz e o nutella. Agora, eram os da mesma espécie que discutiam quase no clima dos primórdios do on e off. Para isso existir, aquilo não pode ter tanta importância. Perderam todos.

Volto ao mar, então, sem demérito da piscina. Eles se completam. Adoraria ter a experiência programática do Surf Ranch do mesmo jeito que fico fascinado por uma onda que cresce no ponto exato em que escolhi, na imensidão de Ipanema. Décadas depois de tomar uma dura em Grumari, descobri a expressão “waterman”. Não é sobre estar em pé, deitado, de caiaque, com remo ou apenas vestindo um pé de pato. É sobre a conexão com o mar, a fluidez e uma sensação de fazer parte daquele ambiente, como se o contato da água salgada com a pele fosse tão vital quanto respirar. Mal comparando, é o que penso toda vez que criatividade não é o centro da questão do nosso mercado. Ou quando ela é ponto apenas uma semana por ano.

A mudança dessa perspectiva me permitiu olhar o mundo do surfe sem procurar a defesa de um território, sem ser hiena. Gostar de ver o Mike Stewart, bodyboarder e bodysurfer, não me impede de me divertir com o Filipe Toledo sobrevoando o mundo. É difícil até explicar. O que o Mark Cunningham faz usando apenas o corpo não é coisa desse mundo, não. Procura no YouTube. Ou dá uma olhada no Clark Little (ok, esse é batido) e toda a gangue do shorebreak. Descubra o Andre Botha desafiando a coluna vertebral em águas rasas ou siga o Bruno Santos pelos tubos da Indonésia. Pense na rotina da galera da Sal e tente não invejar. Tem cara que surfa de boia, com colchão, porta, prancha em formato de picolé. Têm os que só fotografam, o salva-vidas, o que abandonou tudo para ter essa vida. Mas, acima de tudo, existe a relação deles com a onda. Cada um com sua visão e seu estilo.

Em artigo do The Surfer’s Journal sobre o que cacete é um waterman, há esse pedaço: “… a possibilidade de que tal devoção possa levar a uma existência melhor, não apenas como uma pessoa no oceano, mas como alguém em busca de uma vida significativa. Isso é embaraçosamente sincero, exagerado e até clichê, mas é inegavelmente exato. E aí está o problema.”

Sem medo algum de ser clichê, melhor ser “waterman” do que inflexível. Entro no mar porque o sal me faz bem. Na piscina, pelo ritual das braçadas. E penso no duelo entre o cloro e a maresia: ora, nada mal a possibilidade de juntar os dois universos de vez em quando.

Fonte: Meio e Mensagem

Os textos, informações e opiniões publicados neste espaço são de total responsabilidade do(a) autor(a). Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Central da Pauta.

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